Não Mais Quero Esse Armário

#HERSECRET / Não quero mais esse armário

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Resolvi escrever para compartilhar algo muito pessoal, um dos momentos mais importantes da minha vida: como eu saí do armário. Eu sei que atualmente o mundo esta bastante diferente, muito mais abertos aos gays, porém para mim foi muito delicado expor minha orientação sexual para minha família.

Tenho quase 50 anos, e minha primeira experiência lésbica foi aos 18. Sou a filha caçula, tenho mais duas irmãs mais velhas. Minha família sempre foi religiosa, somos do interior, minha avó costumava ser ministra da eucaristia da igreja. Segui todo o protocolo cristão, fiz primeira eucaristia, crisma, frequentava o grupo de estudos bíblicos na adolescência. Porém sempre soube que eu era diferente...

Minhas irmãs sempre gostaram de vestido, de se arrumarem, eu sempre fui mais moleca. Curtia jogar bola na rua, andar com os meninos. Na adolescência foi ficando pior, pois minhas amigas ficavam falando dos meninos e eu não sentia nada por eles. Só queria saber de jogar bola, empinar pipa, estas coisas de interior. Apesar da minha familia ser católica eles nunca me discriminaram por isso, meus pais achavam que eu curtia outras coisas e tudo bem. Como não tenho irmãos homens, acabei ocupando um pouco este papel com o meu pai, assistíamos futebol juntos, ele sempre me chamava para ajudar no jardim. Éramos bastante próximos.

Quando eu completei 17 anos fui fazer cursinho na capital, ir morar com as minhas irmãs. Foi ai que me entendi. Morávamos em um bairro central de São Paulo, bem próximo a uma boite gay. Via aquilo e ficava fascinada. Minhas irmãs as vezes faziam comentários homofóbicos, e eu ficava quetinha, porém sonhava em ir lá. No cursinho fiquei bem próxima de um menino gay, ficamos bastante amigos e combinamos de ir na boite quando completasse 18 anos. Nesta altura ja tinha certeza que era lésbica, apesar de nunca ter beijado uma garota. Finalmente o meu aniversário chegou, e la fomos nos na boite. Foi a primeira vez que me senti a vontade em uma festa. Dancei, paquerei e acabei conhecendo a Marisa. Nos relacionamos por três anos. Nesta época minhas irmãs iam quase todo fim de semana para nossa cidade, e eu sempre inventava uma desculpa para ficar em SP com a Marisa. A Marisa era de uma família super moderna, estudava arquitetura. A mãe dela era super tranquila dela ser lésbica. Passava muito tempo lá e me sentia muito acolhida. Ela também frequentava a minha casa, a apresentava como amiga, minhas irmãs desconfiavam mas não falavam nada.

Nesta época a Marisa falava muito para mim o quanto era importante se abrir com a família, se afirmar como lésbica. Mas eu sempre me esquivava, achava que não era importante, que não fazia diferença e o pior que eles poderiam não me aceitar. O namoro acabou e fui tendo outros relacionamentos, sempre com meninas. Minhas irmãs sempre faziam aquelas perguntas “cade a sua amiga”, sobre uma ex namorada , e eu fingia que havíamos nos distanciado, inventava mil histórias para não ter que contar a verdade. E fui levando a vida assim por quase 20 anos.

Há 6 anos atrás conheci a Claúdia, minha atual parceira. Acabamos indo morar juntas. Meus pais vinham visitar a gente, e como sempre eu continuava fingindo que era uma amiga... Alugamos até um apartamento de dois quartos e tínhamos duas camas para não levantar suspeitas. A Claudia sempre falou que meus pais ja sabiam, que seria legal eu contar para eles, que com certeza ele queriam muito saber por mim. Eu como sempre me esquivava, falava que não tinha porque. Há 2 anos atrás começamos a pensar em nos casar. Era um direito que havíamos conquistado e que seria muito bom para a nossa vida. A Cláudia quer muito ser mãe, e seria muito bacana se pudéssemos fazer isso juntas. Nós sempre fomos muito festeiras, e a Claudia sonhava em fazer uma festa, chamar todo mundo, vestido branco estas coisas. Eu também queria isso, porém devido a minha situação, falava para a gente casar no cartório sem nada. Ela ficava muito magoada, falava que parecia que estávamos fazendo algo errado, que não tínhamos motivo para nos esconder.

De tanto que ela me pressionou, acabei aceitando fazer a festa de casamento. Se até a Danielle Mercury, que é uma pessoa pública havia feito, porque eu não podia. Prometi que iria convidar minha família, e esta seria uma ótima forma de me abrir com eles. Tinha que sair deste armário. Porém a data ia chegando e eu não conseguia me abrir. Os convites estavam impressos ja e nada da tão sonhada conversa. Já tinha todo o dialogo na minha cabeça, pensava nas possíveis reações de cada um, nas respostas que eu ia dar , e nada saia. A Cláudia sempre perguntava se ja tinha convidado eles, se eu queria ajuda para falar, e eu respondia “fim de semana que vem eu falo”. Faltavam 20 dias pro casamento e eu ainda não havia falado. Foi ai que ela surtou comigo. Disse que desse jeito não queria mais casar, que eu prometia as coisas e não cumpria. Que até quando viveríamos nesta sombra.

Como eu não conseguia mesmo falar, resolvi escrever uma carta e enviar junto com os convites para os meus pais. Passei duas noites em claro escrevendo, foram 4 páginas ao todo, falei de tudo da tristeza que sentia por não alcançar as expectativas deles etc. E que seria muito importante para mim a presença deles e das minhas irmãs na festa. Ameacei não colocar no correio, mas respirei fundo, tomei coragem e enviei. Senti um alivio imenso ao enviar, parecia que havia tirado um grande peso das costas. Dois dias depois a minha irmã mais velha me liga, dizendo que meus pais haviam recebido a carta e que eles todos me amavam muito e que iriam sim a festa. Disse também que ela e minha outra irmã sempre souberam, e que há alguns anos elas ja conversavam sobre isso com a minha mãe, e que elas decidiram que era melhor esperar quanto eu me sentisse pronta para falar. Chorei feito criança. Tanto sofrimento por bobagem, poderia ter jogado este armário fora a muito tempo atrás.

No dia do casamento todos foram, e foi lindo. Realmente o dia mais feliz da minha vida. Desculpem o textão, mas acho que muitas pessoas passam por isso que eu passei. Este medo de se afirmar. Gostaria so de incentivar a outras mulheres como eu a se abrirem com seus familiares, a reação pode ser muito melhor do que você espera.

 

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